A evolução recente do setor da construção tem-se refletido numa transformação significativa dos meios técnicos utilizados na execução da envolvente do edifício. A crescente exigência em matéria de desempenho térmico, durabilidade e qualidade construtiva tem alterado os processos produtivos e as soluções de instalação de janelas, portas, fachadas e sistemas de proteção solar.
Em paralelo, a industrialização da construção tem ganho peso, com uma aposta crescente na pré-fabricação de componentes e sistemas. Nas fachadas e na caixilharia, esta tendência traduz-se na produção em ambiente controlado de elementos cada vez mais complexos, que exigem elevados níveis de precisão e controlo. Isso tem puxado pela utilização de equipamentos mais especializados, capazes de garantir consistência e reduzir a margem de erro.
Ao mesmo tempo, fatores como a digitalização dos estaleiros, a introdução de soluções automatizadas e a escassez de mão de obra qualificada estão a acelerar a adoção de maquinaria mais avançada. A necessidade de melhorar a produtividade, reforçar a segurança em obra e responder a projetos tecnicamente mais exigentes está a redefinir o papel destes equipamentos na construção.
Neste contexto, a evolução da maquinaria surge enquadrada por novas exigências regulamentares europeias, que introduzem critérios mais rigorosos em matéria de segurança, desempenho e conformidade.
O Regulamento (UE) 2023/1230 vem alterar de forma estrutural o setor da maquinaria, substituindo a Diretiva Máquinas 2006/42/CE. Ao assumir a forma de regulamento, passa a ser diretamente aplicável em todos os Estados-Membros, com aplicação plena prevista para 2027, reforçando a harmonização das regras no mercado interno.
O novo regime estabelece requisitos mais exigentes em matéria de segurança e saúde, incidindo sobre o design, fabrico e colocação no mercado de equipamentos. Entre os aspetos centrais destacam-se a clarificação dos procedimentos de avaliação de conformidade, o reforço da documentação técnica e a atualização dos critérios associados à marcação CE.
Paralelamente, o regulamento introduz disposições específicas para tecnologias emergentes, incluindo máquinas conectadas, sistemas robotizados e aplicações baseadas em inteligência artificial com funções de segurança. Este enquadramento terá impacto direto em diversos equipamentos utilizados na envolvente do edifício, como plataformas elevatórias, manipuladores telescópicos, robôs de instalação e equipamentos de movimentação e instalação de vidro.
A industrialização da construção tem vindo a afirmar-se como um dos principais vetores de transformação na produção de sistemas para a envolvente do edifício, com impacto direto na maquinaria utilizada e nos processos produtivos. No setor da caixilharia, a evolução dos centros de maquinação CNC – equipamentos de controlo numérico computorizado que permitem executar cortes e operações com elevada precisão – tem sido determinante para aumentar a eficiência e garantir consistência na produção.
De acordo com Ricardo Delca, technical manager da Technal, esta evolução tecnológica “tem vindo a transformar a forma como os fabricantes trabalham os sistemas de caixilharia”, permitindo responder a projetos mais exigentes com níveis superiores de qualidade. O responsável destaca ainda que a industrialização, assente na pré-fabricação e modularização, contribui para tornar a execução em obra mais rápida, previsível e controlada.
Essa lógica de sistema integrado é também visível noutras soluções industrializadas. No caso da Saint-Gobain, o sistema Enveo exemplifica uma abordagem baseada na construção leve e na integração de diferentes tecnologias num sistema completo de fachada. Segundo João Melo, gestor de produto da envolvente exterior, trata-se de uma solução que combina vários componentes num modelo coerente, alinhado com os princípios da pré-fabricação. Na prática, esta abordagem permite reduzir até 40% o tempo de execução de fachadas face a soluções tradicionais, enquanto aumenta a previsibilidade dos processos e diminui a ocorrência de erros e retrabalho em obra.
A crescente dimensão das fachadas e o aumento do recurso a superfícies envidraçadas de grande formato têm vindo a introduzir novos níveis de complexidade: painéis mais pesados, geometrias exigentes e tolerâncias reduzidas obrigam à utilização de equipamentos mais especializados, capazes de garantir precisão no posicionamento e segurança no manuseamento.
No caso da Almovi, a aposta tem passado pela incorporação de equipamentos adaptados a estas exigências, nomeadamente robots de colocação de vidro com capacidades de 600 kg e 625 kg, operados por controlo remoto. Como refere Kátia Gonçalves, diretora comercial, “todo o processo pode ser realizado sem contacto direto com a carga”, o que representa um avanço significativo ao nível da segurança e das condições de operação.
A empresa destaca ainda a introdução de sistemas de contrapeso telecomandado, que permitem alcançar zonas de difícil acesso, bem como a evolução das minigruas, cujos comandos possibilitam o controlo independente da velocidade de cada movimento e permitem ver, no próprio comando, o estado da máquina. Estas soluções revelam-se particularmente relevantes em contextos exigentes, como intervenções em edifícios existentes, espaços interiores, pátios, terraços ou zonas com acessos limitados, onde os equipamentos convencionais apresentam maiores limitações operacionais.
Quanto à digitalização da maquinaria, além da componente física dos equipamentos, a integração de ferramentas digitais permite melhorar o acesso à informação, otimizar operações e reforçar a segurança em obra.
Na Almovi, esta evolução passa pela introdução de QR codes nos equipamentos, permitindo que os operadores acedam de forma imediata a conteúdos de apoio. “A partir deles, o operador tem acesso imediato a manuais, vídeos de utilização e FAQs com boas práticas”, explica Kátia Gonçalves, facilitando a utilização correta das máquinas e reduzindo erros operacionais.
Esta tendência insere-se numa lógica mais ampla de equipamentos conectados, dotados de sensores e sistemas de monitorização que permitem acompanhar o desempenho em tempo real e antecipar necessidades de manutenção. A integração destes dados em plataformas digitais e modelos BIM (Building Information Modeling) contribui para a consolidação do chamado estaleiro digital, onde a informação sobre equipamentos, produtividade e segurança é centralizada.
A manipulação de grandes superfícies envidraçadas e elementos modulares exige soluções que reduzam o risco para os operadores e minimizem o esforço físico associado às operações em obra.
Neste domínio, a evolução dos equipamentos tem permitido transformar as condições de trabalho. A utilização de robots de vidro operados por controlo remoto, como no caso da Almovi, possibilita uma abordagem sem contacto direto com a carga, contribuindo para aumentar a segurança e tornar a operação mais confortável para os profissionais.
Por outro lado, a crescente complexidade das fachadas implica desafios adicionais ao nível da logística e da montagem. Como esclarece Ricardo Delca, da Technal, soluções como fachadas modulares e grandes superfícies envidraçadas exigem uma abordagem mais rigorosa, com recurso a equipamentos especializados que facilitem a instalação. É nesse enquadramento que se tornam particularmente úteis plataformas elevatórias, minigruas, ventosas para vidro e manipuladores telescópicos, que ajudam a assegurar precisão no posicionamento dos elementos e a reduzir o esforço físico em obra.
A industrialização da construção, aliada a processos mais precisos e controlados, permite melhorar o desempenho térmico dos edifícios, reduzir desperdícios e diminuir o impacto ambiental associado à execução em obra.
Neste contexto, o sistema Enveo, da Saint-Gobain, enquadra-se nesta lógica, enquanto solução integrada que concilia produtividade e eficiência energética. Este sistema combina estruturas leves, isolamento e diferentes opções de acabamento num modelo de construção mais previsível e eficiente. “Baseado numa lógica de sistema completo, combina estruturas leves em aço, isolamento em lã mineral, placas de gesso para exterior Glasroc X e diferentes opções de revestimento, permitindo ganhos significativos em termos de eficiência energética e produtividade em obra”, explica João Melo.
Além dos ganhos de produtividade, as soluções Enveo contribuem para melhorar o desempenho térmico da envolvente e apoiar certificações de construção sustentável, através da integração de materiais com documentação ambiental. Paralelamente, a industrialização permite ainda reduzir a movimentação de materiais e o número de operações em estaleiro, diminuindo o impacto logístico e aumentando a eficiência global da obra.
A crescente exigência ao nível da sustentabilidade está também a impulsionar a adoção de materiais mais eficientes e processos produtivos com menor impacto ambiental. A Technal tem acompanhado esta evolução através do desenvolvimento de soluções que combinam desempenho técnico e responsabilidade ambiental, com destaque para a utilização do alumínio CIRCAL, produzido com elevado teor de material reciclado e menor pegada carbónica.
Como indica Ricardo Delca, as exigências regulamentares e energéticas têm vindo a acelerar a inovação no setor, levando ao desenvolvimento de sistemas com “elevado desempenho térmico e acústico”, bem como à incorporação de materiais mais sustentáveis, capazes de responder aos desafios atuais e futuros da construção.
A industrialização da construção surge também como resposta direta à crescente escassez de mão de obra qualificada. A mecanização e a introdução de equipamentos especializados permitem executar tarefas complexas com equipas mais reduzidas, mantendo elevados níveis de precisão e segurança.
Nas palavras de Kátia Gonçalves, da Almovi, esta tendência é cada vez mais evidente no terreno. “Hoje, operações que antes precisavam de cinco serventes podem ser feitas por dois profissionais com o equipamento certo – com maior precisão e menor esforço físico”, refere. De acordo com a responsável, o aumento das fachadas envidraçadas e de soluções mais exigentes tem impulsionado a mecanização e o reforço da capacidade dos equipamentos, permitindo ganhos de produtividade e maior eficiência operacional.
A maquinaria assume, assim, um papel cada vez mais estratégico na execução da envolvente do edifício, numa transformação que deverá acelerar nos próximos anos, impulsionada pela industrialização, pela sustentabilidade e pela escassez de mão de obra.



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